INTRODUÇÃO

Há muitos, muitos anos, 570 milhões, a região de Valongo encontrava-se coberta pelo mar. A história geológica desta região ter-se-á iniciado mais ou menos por esta altura. Os sedimentos que formam o Complexo Xisto-Grauváquico, constituído por xistos, grauvaques, quartzitos e conglomerados, começaram então a depositar-se no fundo do mar. Cerca de 70 milhões de anos depois, o mar recuou deixando a descoberto estas rochas, e pela mesma altura as movimentações tectónicas provocaram dobras e fracturas (Orogenia Caledónica). Há 490 milhões de anos, no Ordovícico, período do início de formação das Serras de Santa Justa e de Pias, o mar começou lentamente a avançar, e sendo relativamente baixa a sua profundidade, depositaram-se em cima do Complexo Xisto-Grauváquico sedimentos grosseiros como seixos e areias que viriam a originar conglomerados e quartzitos. Com o constante avançar do mar e consequente aumento de profundidade, os sedimentos foram se tornando mais finos dando, muito mais tarde, origem às famosas ardósias e outras rochas xistentas muito ricas em fósseis que se encontram em Valongo. No Período Silúrico, cerca de 435-395 milhões de anos, num mar de muito maior profundidade, ter-se-ão depositado sedimentos argilosos com alguns níveis arenosos, que deram, posteriormente, origem a xistos negros e quartzitos. Datam do Devónico, há cerca de 375 milhões de anos, os últimos sedimentos depositados em ambiente marinho, sedimentos estes constituídos por arenitos e xistos. O Anticlinal de Valongo, uma extensa dobra, em cujo centro está o Vale do Rio Ferreira, que quem passeando por um dos percursos desenhados pelo Parque Paleozóico de Valongo poderá observar, ter-se-á formado entre o Período Carbonífero e o Pérmico. Também do Período Carbonífero, aliás como o próprio nome o diz, é Bacia Carbonífera do Douro que se formou há cerca de 290 milhões de anos. Esta região é de particular importância económica devido à exploração das minas de carvão.

Resultante de um projecto entre a Câmara Municipal de Valongo e a Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, o Parque Paleozóico de Valongo, que se localiza a sul deste concelho, numa área em que se integram a Serra de Pias e a Serra de Santa Justa assim como o Vale de Ferreira, é o resultado, não só, da consciencialização da necessidade de preservar a fauna e flora em vias de extinção, mas também da preservação dos vestígios de seres já desaparecidos, e que aqui viveram em épocas remotas.

Ao analisarmos as jazidas fossilíferas de Valongo, verificamos que os ancestrais habitantes dos mares da Era Paleozóica eram bem diferentes dos que habitam os mares actuais. Os fósseis são, desta forma, marcos importantes que a humanidade utiliza, não só para o estudo da evolução das espécies, como através das rochas sedimentares em que estão integrados, para a sua datação através das Eras.

No Centro Interpretativo encontram-se exemplos de fósseis de organismos da Era Paleozóica encontrados em Valongo, as trilobites, (por o seu corpo ser constituído por três lobos) as quais dominavam os mares do Período Ordovícico (início da Era Paleozóica - 570 a 230 milhões de anos).

Destas, encontram-se expostos alguns exemplares dos géneros: Ectillaenus, Placoparia, Neseuretus, Dionide, Nobiliasaphus, Salterocoryphe e Selenopeltis. Para além das Trilobites, encontram-se também expostos outros fósseis como os graptólitos, os braquiópodes, os cefalópodes, crinóides, etc….

Se as Trilobites dominam o Período Ordovícico, já os Graptólitos dominam o Período Silúrico.

Estes animais, extinguiram-se no final da Era Paleozóica, e têm sido os fósseis mais utilizados para se fazer a datação de toda a região de Valongo.

As Trilobites, tal como os seus “parentes” actuais, como por exemplo os crustáceos ou os insectos, pertenciam aos artrópodes, tendo pois, o corpo coberto por uma carapaça rígida. Por essa razão, e tal como com os crustáceos actuais, ao longo do seu crescimento, viam-se na necessidade de ir mudando periodicamente de carapaça. Por esse motivo, muitas das carapaças encontradas hoje, não são parte de um organismo fóssil completo, mas sim apenas a carapaça abandonada pelo organismo vivo, durante uma das fases do seu crescimento. O seu corpo era dividido em três partes articuladas: Céfalo, (região anterior constituída por segmentos coalescentes), Tórax, (região média constituída por segmentos articulados – as pleuras) e Pigídio, (região posterior constituída por segmentos soldados).

Os segmentos articulados da região toráxica, permitiam que a Trilobite se enrolasse, tal como faz o bicho-de-conta, por causas de alterações bruscas do meio ambiente ou razões de perigo. A maioria das Trilobites, tinha olhos compostos por várias lentes, embora algumas não os possuíssem. Um exemplo da Trilobite cega é a Placoparia, que frequentemente aparece em ninhos.

Se bem que na maioria dos casos o seu tamanho variasse entre os 3 e os 10 cm, algumas havia que não excediam uns parcos 6 mm, como a Geragnostus, e outras, como a Ectillaenus giganteus e a Nobiliasaphus do Período Ordovícico, atingiam por vezes 50 cm, sendo que a maior Trilobite conhecida, a Uralichas ribeiroi, dá-nos exemplares com 70 cm. Estes animais, eram ovíparos. Na fauna dos nossos dias, vamos encontrar nos oceanos Índico, Pacífico e Atlântico, os Límulos, que são os organismos mais parecidos com as Trilobites. Também eles artrópodes, existem desde o Período Câmbrico.

Os Graptólitos, no Séc. XVIII, foram inicialmente considerados como inorgânicos, e posteriormente como sendo de natureza vegetal. Nos tempos que correm, considera-se que são os Pterobrânqueos os organismos vivos que maiores semelhanças apresentam com eles. Porém, também se verificam semelhanças com os actuais Celenterados, como a Hidra de água doce. Do período Ordovícico, foram já identificados seis géneros, e do posterior Silúrico, dezasseis.

Da Era Mesozóica, na qual se enquadram os Períodos Triásico, Jurássico e Cretácio e da Era Cenozóica com os Períodos Terciário e Quaternário, não encontramos em Valongo muitos vestígios, excepto o evidente resultado da erosão provocada pelo tempo.

                Hoje, existindo como verdadeiro “pulmão” da Área Metropolitana do Porto, a Serra de Sta. Justa oferece, a todos quantos queiram desfrutar do seu ar puro assim como da sua beleza natural, maravilhosas vistas sobre toda a região envolvente

                As escarpas (Fragas do Diabo e do Castelo), são locais privilegiados para a prática da escalada.

                  Todo o visitante mais curioso que se queira embrenhar pelos antigos caminhos, onde povos passados, fizeram a sua vida, tem, na zona do Parque, três percursos que devem ser realizados a pé. Neles, encontrará não só aspectos de património natural como também património construído.

              Esses percursos, durante toda a sua extensão, estão devidamente assinalados com postes de cores diferentes, consoante o caminho a percorrer.

              Os postes vermelhos, como em tudo que é sinalética, significam perigo.

              Dentre os diferentes pontos de interesse, podemos destacar a possibilidade de visitar moinhos hidráulicos em funcionamento, ter vista sobre o vale do rio Ferreira, no alto das Fragas do Castelo, deparar-nos com os vários Fojos dispersos pela Serra, e uma visita à Aldeia de Couce.

                Devido ao microclima aí existente, deparamos a par e passo com toda uma série de espécies vegetais (fetos, árvores, arbustos e plantas carnívoras) e animais, raras (salamandra, morcego, águia de asa redonda, coelho bravo e raposo).

                     Os fetos, encontram na margem dos ribeiros, na boca das minas e dos fojos condições propícias ao seu desenvolvimento, podendo aqui serem encontrados em grande diversidade, incluindo espécies bastante raras tanto a nível Nacional como mesmo Europeu.

                      Eucaliptos, sobreiros e pinheiros, bem como carvalhos e salgueiros, estes mais nas proximidades do rio, são as árvores com que aqui nos deparamos.

Os principais arbustos, são a urze e o tojo.

As plantas carnívoras, cuja população a nível mundial está estimada em cerca de 600 espécies, têm aqui duas espécies de rorelas ou orvalhinhas e, nas zonas mais secas, o Pinheiro-baboso ou Orvalho-do-sol. Estas, desenvolveram a capacidade de capturar e digerir presas (normalmente insectos) para compensarem as deficiências nutricionais próprias dos seus habitats. 

                Do reino animal, são os insectos que, estando na base da alimentação de muitas aves e mamíferos, em maior número se encontram.

Libélulas, gafanhotos, e borboletas, são fáceis de observar.

                  Dos répteis, sendo as lagartixas bastante comuns, já o mesmo não se pode dizer das salamandras-portuguesas, vivendo essencialmente nos fojos e nas minas.

Aves como o pisco-de-peito-ruivo, melros, rolas, gralhas, pegas-rabudas e pica-paus-verdes são dos animais mais fáceis de observar.

 Quanto às águias-de-asa-redonda, depois do desaparecimento quase  total de gaviões e várias espécies de falcões, só de quando em vez se conseguem ver.

De hábitos nocturnos, tal como a coruja-do-mato, são os mamíferos que, como o coelho-bravo a raposa e outros mais pequenos como o ouriço-cacheiro o rato-do-campo e a toupeira por estas paragens habitam.

As autoridades autárquicas têm em vista a gestão deste espaço de um modo que permita a Educação Ambiental e o contacto com a Natureza, efectuada de um modo ordenado.

Assim, o futuro verá melhorias significativas nesta área, através de programas de requalificação ambiental, nomeadamente a reflorestação com espécies autóctones, a limpeza das linhas de água e a redução da poluição, assim como a protecção eficaz às espécies ameaçadas.