MOSTEIRO DE PAÇO DE SOUSA
Monumento Nacional

A igreja actual, que foi concluída e sagrada no ano de 1088, como se colige da seguinte inscrição em latim, pintada no tímpano da porta principal, a tinta azul: - TEMPLUM HOC AD. TRUITHZINDO. GALENDIS FUNDATUM ANNO D.CCCCLVI SACRATUM. FUIT. AD. PETRO ARCHIEBISCOPO BRACHARENSI. HISPANIARUM PRIMATE. III KLOCTOBR ANNO M.LXXXVIII. - sendo monarca D. Afonso VI de Leão.

Esta inscrição indica-nos o início da construção da igreja, enquanto o arquivo afirma que o Mosteiro se encontrava fundado e com monges  pelos anos de 962. O paço dos fundadores do Mosteiro ficava contíguo ao cenóbio, a sul, na margem direita do ribeiro de Palaciolo (depois de gamuz).

       O primeiro abade do Mosteiro, D. Randulfo, fez o seu testamento em 994, sendo o mais antigo documento existente de Paço de Sousa (Livro dos Testamentos do Mosteiro de Paço de Sousa, Braga,1972).

 A  29 de Setembro de 1088, dá-se a sagração do altar-mor (antigo) da igreja monástica, depois de 132 anos que se gastaram na sua construção, e por se achar vaga a diocese do Porto, por falecimento do bispo D. Sisnando II, veio sagrar esta igreja o Arcebispo de Braga, D. Pedro, a convite de D. Egas Ermiges (Ramires), padroeiro do Mosteiro e descendente dos seus fundadores. Dedicada ao Salvador, chamou-se Basílica do Salvador, não só em razão da grandeza e imponência da sua fábrica, mas para a distinguir da sua anexa, a Igreja do Corporal. Esta, construída no Séc. X, comunicava com a igreja do Salvador, pelo norte. Mandada construir por Trocosendo Guedes, nascido no segundo quartel do Séc. X, e constando dos velhos papéis que este pretendia acolher-se, “post mortem”, à protecção directa do Salvador, orago do seu convento, junto da respectiva igreja, mandou construir um segundo templo, espécie de capela funerária, bastante ampla para servir de jazida aos membros da família “enquanto o mundo fosse mundo”. Essa capela designada com o nome de “Corporal de Paço de Sousa”, conservou-se tal como fora edificada, até 1605, ano em que foi demolida.

Da igreja conventual erigida por Trocosendo não existe (e crê-se que nunca existiu) qualquer memória descritiva.

 A Basílica do Salvador - majestosa -, é a actual igreja paroquial, com três naves e transepto, rica de arte e simbolismo.

O cronista dos beneditinos portugueses, Fr. Leão de S. Tomaz, refere que D. Egas Moniz mandara ali edificar “aposentos seus, que tiveram o nome de Paço, hum dormitório grande pera os Religiosos, com hua tôrre forte e fermosa”. Acrescenta, escrevendo entre 1630 e 1650, que ainda conheceu essa tôrre “sirvindo de Hospedaria”.Porém, mais certo parece ser a versão que diz ser ali o lugar de seu nascimento.

 D. Egas Moniz, Aio de D. Afonso Henriques (1º Rei de Portugal) e símbolo da lealdade portuguesa, foi sepultado, em 1146, na Igreja do Corporal, em mausoléu alevantado com legenda; cujas pedras adornadas de relevos referentes à ida à corte de Leão, “dar a doce vida a troco da palavra mal cumprida”, se encontram actualmente, escalavradas, à direita da porta principal da igreja paroquial.

À volta de D. Egas Moniz, existe alguma confusão, já que Pinho Leal, no seu“Portugal Antigo e Moderno”, dá D. Egas Moniz como filho de Múnio Ermiges e neto de Trocosendo Guedas. Já o Padre Carvalho e outros historiadores, admitem o erro de tal afirmação. Além do Pai de Múnio Ermigues se chamar Ermigo Viegas e pertencer a outra família, Trocosendo Guedas, sendo contemporâneo de seu trisavô, não poderia nunca ser avô de D. Egas Moniz .

No largo do mosteiro tudo lembra D. Egas Moniz, sob a corruptela de Gamuz: o terreiro, a ponte, o ribeiro, a presa e a fonte.

       O Mosteiro de Paço de Sousa, teve o seu couto - o Couto de Paço de Sousa - instituição já demarcada e com foral próprio em 1123 e, anexo, o de Casconha.

Foi incorporado no Termo de Penafiel em 23 de Agosto de 1794. O padrão dos Coutos, onde as audiências se faziam, era o velho carvalho de Gamuz, ou das audiências, na margem esquerda do ribeiro.

Desde meados do Séc. XII, a administração económica do Mosteiro foi dividida em Mesa Abacial e Mesa Conventual.

A 12 de Setembro de 1259, o Bispo do Porto, D. Julião, incorporou as freguesias de S. Martinho de Velhas, S. Lourenço e Santa Ovaia de Esmegilde na freguesia do Mosteiro Beneditino, com o título de Santa Maria do Corporal de Paço de Sousa, com capelão próprio do clero secular apresentado pelo D. Abade do mosteiro.

       D. Frei João Álvares, Abade comendatário de 1461 a 1484, com verdadeiro zelo apostólico restabeleceu o espírito monástico.

       O Arcebispo de Braga, D. Frei Bartolomeu dos Mártires, foi a Paço de Sousa em 1574 e informou favoravelmente o Papa.

       Porém, a 8 de Julho de 1579, por sentença do Cardeal D. Henrique, a Mesa Abacial foi desmembrada do Mosteiro e entregue aos Jesuítas. Edificaram, em 1581, perto do Mosteiro, uma residência, (reformada em 1886) e publicaram o Tombo da Mesa Abacial, impresso, (em 1593),na cidade de Évora.

       No dia 1 de Novembro de 1596, por ordem de Clemente VIII, tomaram os Beneditinos a paroquiação da freguesia que, desde essa época, se passou a intitular oficialmente “freguesia do Salvador de Paço de Sousa”, por ser o Salvador (Transfiguração de Jesus no Monte Tabor) a invocação do mosteiro e da igreja monástica, (até 1834).

Em 1605, Fr. Martinho Golias, verificando que a capela-jazigo do fundador, a “Corporal do Paço de Sousa”,necessitava de obras urgentes e dispendiosas, ameaçando ruir sobre os nobres sepulcros que encerrava, decidiu demolir a mesma,.ordenando que os 14 túmulos da Corporal fossem transladados para a igreja do convento. Segundo o testemunho de um códice encontrado no arquivo da comunidade, todos esses jazigos teriam apreciável merecimento histórico e artístico, pois de campas rasas não se tratava. De todos, só o de D. Egas Moniz e um outro que se supõe ser de seus filhos, tiveram honra na capela-mor.

A monografia do Mosteiro foi escrita em 1799 por Frei António da Assunção Meireles, Cartorário-mor da Congregação de S. Bento, e publicada pela Academia Portuguesa da História sob o título de “Memórias do Mosteiro de Paço de Sousa & Index dos Documentos do Arquivo”(Lisboa, 1942).

Da época barroca, sofre influências, com inúmeras adaptações, como que a querer esconder a singeleza da sua nobre frontaria. Acumulando cornijas, capitéis,  frontões, pináculos, etc., não terá, certamente, em qualquer monumento nacional, algo que o exceda, ou até compare, até hoje.

Dessa época, nasceu também, supomos, o campanário que ali se ergueu pelo mesmo tempo. Este era firmado nos muros da frontaria e fachada do sul e em alguns dos primeiros arcos interiores da Igreja os quais, na parte mais próxima do respectivo ângulo de ligação, tinham sido elevados até onde corria a cornija da torre, sobre as janelas sineiras.

O edifício do convento (Casa Pia desde 1888) acrescentado até ultrapassar os antigos limites do adro, encobriu toda a parte exterior da igreja no lugar onde se erguia a torre.

A fachada sul, também ela desapareceu por detrás da grossa parede que serviu para sustentar a galeria do claustro.

Porém, com as obras de restauração levadas a cabo pela Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, a traça original renasceu em todo o seu esplendor.

Reconstituída a rosácea, reabertas as frestas da fachada sul e refeitas as da fachada do norte, mais uma vez o templo foi invadido pela doce claridade que os antigos construtores tão sabiamente instalavam nos lugares de recolhimento e oração.

Na ala do claustro, onde o incêndio de 9 de Março de 1927, lavrara com violência, e ainda no chafariz vizinho foram necessários demorados e minuciosos trabalhos de consolidação.

Também se procedeu à obra que teve por fim recompor as paredes do claustro, em conformidade com as suas características originais e defendê-las, simultaneamente, da invasão de salitre que as estava a degradar, já que se encontram voltadas a sul.

Essa erosão é notória nos capitéis que encabeçam as colunas da mais bela das duas portas laterais da Igreja a qual ficou completamente descoberta assim que se procedeu ao derrube da segunda parede que aí se tinha construído para sustentar a galeria do claustro.

Na empena da nave cruzeiro, firma-se uma cruz terminal com um anjo inscrito

A nave norte, dá para o cemitério da paróquia, construído no ano de 1890a norte da Igreja do Salvador, a qual aí se manteve durante cerca de 650 gloriosos anos.

Corria esta igreja de nascente a poente, contígua e paralela à Igreja do Salvador.

Comunicava interiormente com esta pelo transepto e corpo da igreja, de cujas comunicações ainda restam vestígios.

Membros da família dos fundadores e de outros nobres, tiveram aí a sua jazida, e os nomes gravados em lápides comemorativas.

Ao fundo deste, podemos observar a cruz e os dois fogaréus que foram retirados da frontaria aquando do seu restauro.

Note-se o bonito recorte exterior das absidíolas, com lumaréus fendidos (moldurados e boleados) no extremo da linha axial, beleza que lhes foi devolvida com as obras de restauração inauguradas a 1 de Setembro de 1929.

É também nessa data que o cenotáfio de D. Egas Moniz é reconstituído na absidíola norte.

Sendo a Igreja do Salvador constituída por três naves extensas, cujo estilo é da transição do românico para o gótico, a nave central é a mais elevada.

A fachada, como todas as da época, tipo fortaleza, apresenta um gigante gótico flanqueando o portal.

Este, é de 5 arquivoltas assentes em colunas trabalhadas com ábacos e capitéis decorados com elementos fitomórficos. A envolvê-las, tranças de boleados e um friso ornamental.

Completando o conjunto, estão os emblemas dos evangelistas S. Lucas e S. Marcos (cabeças de boi e de homem).

No tímpano da empena, em dois círculos, as figuras de um homem e uma mulher, que soerguem os símbolos do sol e da lua, representando o firmamento.

No centro, a inscrição em latim que marca a data da sua sagração.

No respaldo do seu coroamento, uma cachorrada, também esta a substituir a original, toda ela de curiosa decoração zoomórfica.

A coroar o conjunto, uma larga rosácea, também esta, restaurada.

O interior da Igreja, apresenta-nos um repositório de esculturas medievais, em granito.

O cenotáfio de D. Egas Moniz, cujas pedras se encontravam encostadas às paredes laterais, estando a tampa sepulcral e a cena da morte adossadas à parede interior do lado Norte, e as pedras da jornada a Toledo adossadas à parede interior da Igreja, tapando a porta Sul, foi reconstituído a 13 de Agosto de 1929, tendo ficado até aos dias de hoje, e esperemos que de lá mais não saia,  no absidíolo Norte da Igreja Paroquial.

A urna mortuária contendo as suas cinzas, está soldada e colocada no túmulo de D. Egas Moniz, na Igreja Paroquial, ao lado do Evangelho.

A transladação solene dos seus restos mortais e de seus Filhos, da Igreja do Corporal para a abside central da Igreja do Salvador, por ordem de Frei Martinho Golias, foi feita com pompa e solenidade. Se os restos mortais de D. Egas Moniz foram colocados  à parte do Evangelho os de seus Filhos foram colocados ao lado da Epístola.

“Na frontaria, junto ao pórtico principal, fôra incrustrada quási ao rés-do-solo, uma alta pedra onde se achava figurado o apóstolo S. Pedro - imagem tôsca, de feição medieval, esculpiuda sob um baldaquino também de pedra  encimado pelas insígnias papais. Esta imagem colocada em tam desfavorável lugar, (...). Resolveu-se, por isso, mudá-la para o interior da Igreja.”.

Numa coluna da nave Norte, está representada uma águia arrebatando um coelho.

É nesta nave que, no seu absidíolo, se encontra o Altar do Santíssimo. Um outro  no absidíolo da nave Sul, o Altar de Nossa Senhora de Fátima.

Na nave central, um fresco representa a Transfiguração do Senhor.

No adro da igreja, a 16 de Agosto de 1690, é erigido um formoso cruzeiro, com data gravada. Tem o brasão da Congregação de S. Bento.

Em 1943 foi mudado para o Alto do Assento.

      O exército francês, aquando da 2ª invasão (Soult) em 1809, causou estragos no Convento.

Em 1834, dá-se a sua extinção, por decreto. O Abade Fr. José de Nossa Senhora da Penha e os monges, são expulsos.

O Mosteiro e as suas propriedades são comprados por António Nunes Teixeira, comerciante do Porto.