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No BOLETIM MUNICIPAL
ANO XII – N.º 81 de 1997, deparamos com o seguinte texto:
No fecho do
Boletim Municipal, a Câmara recebeu a resposta do IPPAR à sua proposta de
classificação do Mosteiro de Vilela. Projecto de levantamento exaustivo que
decorre do Património Cultural.
Assim, para satisfação de todos os paredenses foi determinada, por despacho
superior do IPPAR de 14 de Abril de 1997, a abertura de instrução do processo de
classificação do conjunto constituído pela Igreja e Mosteiro de Vilela, Cruzeiro
fronteiro à Igreja e parte da quinta do Mosteiro”.
Esse levantamento publicado em
Abril de 1998, por António Maria Melo,
da Comissão de Coordenação da Região Norte; José João Rigaud de Sousa,
do Centro de Estudos Humanísticos; e Flórido de Vasconcelos, da Academia
Nacional de Belas Artes, está publicado com o nome “O MOSTEIRO DE CÓNEGOS
CRÚZIOS DE ST.º ESTEVÃO DE VILELA EM PAREDES”, e datado, Porto, Abril
1998.
É com base nesse documento que se passa a expor:
Desde a sua origem no ano 338, na sua cidade
natal, Tagaste, na
Numídia, e depois como Bispo de Hipona, Santo Agostinho não deixou
propriamente uma Regra, (...) mas sim alguns escritos que foram como que
o gérmen e núcleo de Regras Monásticas posteriores:
- a
Carta 211 à sua irmã e monjas que com ela
viviam em Tagaste (mais tarde chamada Regula Servus Dei) dividida
em 12 capítulos (...) , os sermões
“De vita et
moribus clericorum suorum” e
“Enarrationes
super psalmun 132”.
- No ano de 450 os cenóbios, ermitérios e mosteiros
masculinos ou femininos que seguiam a regra de
S. Santo Agostinho eram cerca de
100. A Regra de Santo Agostinho deve ter chegado a Espanha com a
colónia do abade Donato, formada por 70 monges, que chegou à costa
Valenciana pelo ano de 569 e fundou o Monasterium Servitanum.
O monaquismo agostiniano desenvolveu-se amplamente nas antigas
províncias romanas e reorganizou-se, a partir da invasão muçulmana, ampliando a
sua influência às cidades reconquistadas.
Muitos destes mosteiros e cenóbios
viveram muito tempo sem qualquer estrutura federativa, simplesmente assentes na Regra. Mas não deixam
de fazer parte do monaquismo anterior ao ano 1000, a par dos Beneditinos.
Com o decair da vida em comum dos
cabidos catedralícios dá-se, ao mesmo tempo, o afã de outros clérigos em viver
comunitariamente segundo uma regra. Nascem assim os
Cónegos Regrantes. E seguem quase sem
excepção, a Regra de Santo Agostinho.
De entre os
Cónegos Regrantes, muitos, Bispos
Portugueses, destaca-se sem dúvida, D. João Peculiar, que tendo
estudado em França, reformou o Mosteiro de S. Cristóvão de Lafões, está
na fundação de Santa Cruz de Coimbra em 1131, é Bispo do Porto
(1137 e 1138) e de Braga (1138 – 1175), desempenha um importante papel na
relação da Igreja com a Coroa, sustenta o Rei D.
Afonso Henriques nos seus esforços para manter a independência em relação a
Leão e Castela, e diligencia junto do Papa o a poio a
esta política. Foram também os Cónegos Regrantes que, entre outros
trabalhos, redigiram os “anais de D. Afonso Henriques”.
Porém, é preciso começar por afirmar que, a vida
canonical não nasce em
Portugal em 1131 com os Cónegos Regrantes de Santa Cruz criados em
Coimbra por D. Telo (...), e com o apoio de D. Afonso Henriques. Já
antes de 1131, a vida canonical existia em Vilela, precedendo a de
Santa Cruz.
O
Mosteiro de Santo Estevão de Vilela está noticiado na documentação
medieval conhecida desde pelo menos 1030, com Cónegos Regrantes desde
1069 – logo a seguir a Grijó – portanto, ainda antes de Sta.
Cruz de Coimbra (1131).
Trata-se do único
Mosteiro Crúzio de Paredes, depois de na
vizinha freguesia de Lordelo, do antigo Mosteiro de Cónegos Regrantes
de Santa Cruz, hoje
desaparecido, só restar uma Igreja,
agora paroquial e muito transformada,
com elementos românicos, maneiristas e contemporâneos.
No Vale de Sousa vamos ainda encontrar em Caramos,
Felgueiras, um conjunto maneirista e barroco remanescente de outro
Mosteiro Crúzio dos séculos XVII e XVIII, incluindo Igreja, Mosteiro, Via
Sacra e Capela de Encontro.
Temos como fundador do
Mosteiro de Santo Estevão de Vilela, o
Capitão D. Paio Guterres, filho de D. Guterres, vindo com o Conde
D. Henrique, para o então Condado Portucalense (PMH; Livro Linhagens
Conde D. Pedro, 1980, tit. 55, a 2 citado por Pinho Leal).
Apesar de as construções e decorações actualmente
visíveis em Vilela
serem dos Séculos XVII a XIX, e de não se conhecerem vestígios românicos, nada
nos diz que tais vestígios não possam ainda aparecer, quer incorporados na
actual construção, quer soltos no meio dos campos, tal como aconteceu quer com o
Mosteiro de Moreira, no concelho da Maia, quer com o M osteiro
de Tuias, igualmente Crúzio, no Marco de Canaveses.
Vilela é, assim, um sítio carregado do maior simbolismo histórico. O
Mosteiro de Vilela (inicialmente dos Beneditinos e pouco depois
dos Cónegos Regrantes) é no concelho de Paredes, a par do
Mosteiro de Cete (Beneditinos), um monumento que assinala os primórdios
documentados quer da Regra S. Bento quer dos Cónegos Regulares, no
Condado Portucalense.
O quadro seguinte resume os principais factos
documentados da história do
Mosteiro de Vilela.
1000 – em
Anégia eram conhecidos os Mosteiros de
Soalhães, Cete e Paço de Sousa
? – Fundação de
Vilela
1030 –
Vilela: Mosteiro dúplice
1128 – carta de couto de
D. Teresa refere o perímetro doado ao
Mosteiro de Vilela
1590 – Faleceu
António Brandão, último abade comendatário de
Vilela.
1595 – Adesão de
Vilela à Congregação de Santa Cruz de
Coimbra
1612 – O
Mosteiro de Vilela une-se ao da Serra do
Pilar
1770 –
Papa Clemente XIV extingue vários mosteiros (Grijó,
Moreira, outros que não Vilela)
1783 –
Vilela: a Igreja foi reedificada (imita
a planta de Moreira)
1834 –
Vilela era habitada por seis Cónegos,
dos quais; 1 Prior, 1 Vigário e 1 Procurador
1876 – Restauro interior da
Igreja de Vilela
No antigo
Mosteiro de Vilela podemos considerar, sob o
ponto de vista artístico, duas áreas distintas: a Igreja, hoje paroquial,
e o edifício anexo, que constitui o convento,
pertença de um particular.
A
Igreja é inspirada na do Mosteiro de Moreira da Maia, que
pertenceu à mesma Ordem.
Na fachada principal, tem o corpo central
ladeado por duas torres, sendo estas quase isentas e de cobertura piramidal
quadrangular.
O corpo central é coroado por um frontão triangular, cujas
proporções são mais próximas das dos edifícios setecentistas do que das
arquitecturas do séc. anterior.
No entanto, os perfis das respectivas molduras
remetem para estes tempos – ao contrário do que nos diz o coroamento do portal,
cujo frontão, interrompido e de volutas invertidas, sugere uma tipologia
nitidamente barroca, que se tem acreditado ter sido importada por Nazoni...
Sobre o janelão que se apoia nestas volutas, abre-se um nicho, de desenho bem
maneirista, abrigando a imagem de Santo Agostinho, em granito (...).
A
planta da igreja é de grande simplicidade de nave única, sem transepto nem
capelas laterais, e capela mor de menores dimensões (...).
A cobertura é em abóbada de berço semi-circular,
revestida de caixotões, que não são os originais. (...).
As altas janelas da nave, com as suas severas
molduras de granito (...) são encimadas por sanefas de talha neoclássica (...).
Os grandes janelões deverão ser (...) restituídos
à sobriedade da sua expressão arquitectónica característica da severa corrente
maneirista.
No topo da
Capela Mor ergue-se o retábulo, de talha
neoclássica com reminiscências rococó(...) os dois pares de colunas c aneladas
nos dois terços superiores e de capitéis compósitos, bem como os dados
que os encimam, e as mísulas das ilhargas, que sustentam as imagens de Santo
Estevão e de Nossa Senhora da Hora, são nitidamente obras de
inspiração neoclássica.(...).
Mas o reaproveitamento que mais importa salientar é
o de três frontais, que se podem atribuir aos princípios do séc. XVIII (...).
No
exterior da igreja, existe ainda o edifício do antigo mosteiro, que apresenta
três alas determinando um espaço quadrangular, não fechado (...).
Das três portas
do primeiro tramo, a central constitui a, digamos, porta nobre do edifício:(...)
apresenta-se coroada por um complicado conjunto de aletas curvas, assente num
lintel em arco segmentar, e interrompendo-se ao ce ntro
para dar lugar a um corpo barroco, com frontão terminado em acento circunflexo,
em cujo vértice se equilibra um óculo hexagonal, de lados côncavos, vagamente
chinês...
O campo do
frontão é ocupado por um escudo oval, com uma flor de lis e o que parece ser um
pássaro, rodeado por quatro ornatos em C, contendo conchas de nítido sabor
rococó.
De cada lado desta complicada e confusa máquina ornamental, ao nível do
segundo piso, rasgam-se duas bem proporcionadas janelas de peitoril, de lintel
em arco segmentar, embebido na cornija,(...) esquema que se repete na fachada do
torreão, no espaço entre a pilastra divisória e a empena que marca a articulação
com o segundo corpo do edifício, de eixo paralelo à Igreja.
Este será o maior de
todo o conjunto, com planta cruciforme, (...).

No topo virado ao exterior,
rasgam-se cinco janelas (...), sendo a do meio coroada por um frontão a que se
sobrepõe um óculo (...); o outro topo, (...), oferece-nos o alçado mais curioso
e intrigante deste conjunto: cinco janelas de sacada, em arco semi circular,
sendo a central ligeiramente mais alta, abrindo para um patamar onde partem dois
lanços de escadas em direcções opostas, num esquema herdado do séc. XVIII (...).
Finalmente, a terceira ala, cuja articulação
com o edifício da igreja parece nunca ter existido. De notável, apenas uma
chaminé com decoração pouco habitual. (...).
Infelizmente, existe hoje uma tendência. (...)
para valorizar os testemunhos artísticos das épocas moderna e contemporânea,
mais em função da sua qualidade estética do que da sua importância histórica. Ao
contrário do que tem acontecido – e bem – com vestígios ou monumentos, mesmo
fragmentários, de épocas mais recuadas, desde a pré-história aos tempos da
romanização.

E ( finaliza o autor), julgo que deverá ser
este o critério a seguir no caso do Mosteiro de Vilela cujos edifícios são o
vivo testemunho da sua antiquíssima existência, não nos permitindo aceitar a sua
deformação, ocultação ou aviltamento seja a que pretexto for.
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