MOSTEIRO DE CETE
Monumento Nacional

O nome desta localidade terá provindo do nome árabe Cidi ou Vila Cidi, conforme aparece num instrumento de doação ao Convento de Vacariça. D. Teresa deu Carta de Couto ao Mosteiro (1112), confirmada pelo primeiro rei, D. Afonso Henriques.

Fundado no séc. IX e reconquistado no séc. XI, do grande mosteiro medieval restam a igreja, a sala do capítulo e o claustro.

A igreja foi reformada no séc. XIV e restaurada no séc. XV.

Desta época são a torre ameada, o claustro actual, o gigante da fachada e outros pormenores.

A fachada, tipo fortaleza, apresenta o gigante gótico flanqueando o portal. Este é de 4 arquivoltas assentes em colunas trabalhadas com ábacos e capitéis. A envolver o pórtico, uma trança de boleados, sobre o mesmo uma pedra de armas e sobre esta uma rosácea.

Ao nível da fachada ergue-se uma torre do séc. XV.

No flanco norte, cuja cornija é corrida por uma cachorrada abrem-se dois portais, um ogival e outro com arco de volta inteira.

A cabeceira, onde se abrem janelas emolduradas, é reforçada por botaréus.

Junto ao flanco sul, estão os claustros pré-manuelinos e túmulos medievais.

Interior de uma nave coberta de teto de madeira, com destaque para a Capela-Mor e para a Capela Funerária.

A Capela-Mor abre por um belo arco-mestre assente em colunas capitelizadas com decoração fitomórfica (no lado esquerdo) e antropomórfica (no lado direito), e é coberta por abóbada ogival.

No lado esquerdo, um túmulo com jacente do séc. XIV.

A Capela Funerária, edificada no interior da torre, tem abóbada artesoada e tem acesso por porta ogival. Guarda um túmulo recamado de motivos fitomórficos e inserido num arcossolio Manuelino de finíssimo lavor e uma pia baptismal do tipo quinhentista.

Imaginário do séc. XVIII e uma Sra. da Graça, talvez do séc. XVI. Na casa conventual, muito modificada, subsistem o portal gótico e algumas janelas de cunho romano-gótico.

Não podemos confundir Mosteiro com Igreja. A Igreja de S. Pedro de Cete (Vaseliga Vocabulo Santo Pedro) existia no séc. X (doc. de 16.7.985); portanto, fora fundada anteriormente, e nada impede que fosse sita no lugar de Samprovelho (São Pero Velho) e, destruída pelos Mouros ou pelo tempo, tenha sido feita de novo, um pouco mais abaixo, no lugar onde hoje a vemos. Essa reconstrução, porém, atribuída a D. Gonçalo Oveques, não pode ter sido em 967, como se diz, mas talvez cerca de um Século depois.O Mosteiro, atraído pela Igreja e anexo à mesma, esse poderá datar precisamente da época da reconstrução da Igreja, no séc. XI, e então terá razão o conde D. Pedro, que no seu Nobiliário, tit.44 diz: “D. Gonçalo Ouveques, o que fundou o Mosteyro de Cete”.

Um documento de 16.2.1077 já fala em S. Bento, e outro, datado de 1049 mas certamente posterior, já fala em Mosteiro (Monasterio Sancti Petri de Ceti) e (omnes qui vita sancta perseveraverin). Os Monges eram Beneditinos, uma vez que a Regra de S. Bento, após o Concílio de Coiança de 1055, começava a impor-se no Noroeste da Península. Frei Leão de S. Tomás, nos prolegómenos das “Constitutiones Monachorum Nigrorum “O.S.B.” (Coimbra 1629), diz que o Mosteiro é anterior ao ano de 1092, porque nesse ano um monge de Paço de Sousa, chamado Fr. Plácido de S. Bento, foi eleito seu prior.

Partindo destes dados, temos que, durante bons cinco séculos (XI a XVI), o Mosteiro de Cete viveu e prosperou sob a Regra do Patriarca S. Bento.

No meio da documentação abundante, avulta a Carta de Couto, concedida pela Rainha D. Teresa, e que existia em letra antiga e rrabuda afor dantigo; e bem assim a doação de Leverinho (Lebrinho, freg. De Covelo, Gondomar), feita por D. Afonso Henriques.

De entre os Abades perpétuos, destaca-se D. Estevão (+ era 1361 = ano 1323), o reedificado da Igreja de Gonçalo Oveques a que hoje existe, em cuja capela-mor tem túmulo condigno, com lápide incrustada na parede.

Os Abades comendatários, foram três: Simão Faria, clérigo, o Cardeal di Santa Fiora, Guido Ascánio Sforza e, finalmente o agostinho Fr. Luis de Montoya. Este, à morte do Cardeal Santa Fiora, e com as boas graças do Rei D. João III, obteve para si do Papa Júlio III a Comenda do Mosteiro de Cete. A Bula respectiva é datada de 18.3.1550, e impõe ao agostinho a obrigação de, primeiro, professar a regra de S. Bento de cuja Ordem era o Mosteiro, o que Montoya não fez, renunciando a abadia em favor do Colégio de Nossa Senhora da Graça que a Ordem dos Eremitas tinha em Coimbra, pedindo ao mesmo Papa que sancionasse tal disposição; o Pontífice anuiu (bula de 12.10.1551) e, desde essa data o Mosteiro de Cete, com tudo quanto lhe pertencia, passou virtualmente para a posse dos Gracianos.

Virtualmente, dizemos, porque ainda eram vivos alguns monges Beneditinos nele professos, e, naturalmente, o Papa ressalvava em favor deles os direitos que tinham sobre a Mesa Conventual. Por isso, como se lê no Livro da Fazenda do Mosteiro de Cete, existente no Arquivo Distrital do Porto, “não teve a dita união seu adequado cumprimento e última incorporação senão em o ano de 1613, em que, por falecimento do último monge de S. Bento, tomou o dito Colégio de Coimbra posse absoluta de tudo.

Quer dizer: a passagem do Mosteiro dos Beneditinos para os Gracianos fez-se por partes, gradualmente:

1º) D. João III nomeia comendatário o seu confessor Fr. Luis de Montoya;

2º) Montoya renuncia a sua comenda (portanto apenas a Mesa Abacial ) a favor da sua Ordem, que era dos Eremitas de Santo Agostinho, vulgo Gracianos; mas os Beneditinos continuaram na posse da Mesa Conventual, até à morte do último;

3º) Pela morte do último Beneditino, as duas Mesas, ou seja, a totalidade das rendas do Mosteiro, uniram-se na posse dos Gracianos.

Foi em 1551 que a Ordem dos Eremitas de Santo Agostinho (Gracianos) entrou virtualmente na posse de Cete. Catorze anos depois, um monge Espanhol, Fr. Afonso Zorrilla, a quem o Cardeal D. Henrique cometeu a Visitação dos mosteiros Beneditinos Portugueses, (...) .

Cete fora dado aos Gracianos, Pedroso (Gaia) aos Jesuítas, e S. Salvador da Torre (Viana) aos Dominicanos. Em todos havia ainda monges Beneditinos de Claustra; mas aos que tinham os mosteiros nada se lhes dava deles, diz o Visitador, que não se coíbe de acrescentar ser opinião sua que os que tinham com má consciência e, quando pior, o que pretendiam era extingui-los. Por isso não estavam interessados na reforma, nem se importava que os monges estivessem relaxados (perdidos) e sem prática de voto de pobreza individual (proprietários).

Pelo que a Cete diz respeito, a Congregação erecta de 1556 interessou-se por ele e por dois monges que nele viviam: Fr. João, que era o Prior, e Fr. Sebastião. Estes dois claustrais desejavam passar à observância, e bem mostraram a sua boa vontade nesse sentido; mas foram obstaculizados pelos Gracianos. Até que o velho Prior Fr. João morreu, e o confrade Fr. Sebastião também desapareceu do número dos vivos em 1613.

O reitor do Colégio da Nossa Senhora da Graça, da Ordem dos Eremitas de Santo Agostinho, tomou o título de “Reitor de Coimbra e Dom Abade de Cete”! E o mosteiro passou a ser administrado por um Graciano com o título de “Presidente, Vice-Abade e Procurador-Geral do Real Colégio”, enquanto que a freguesia começou a ser paroquiada por um seu confrade com o título de Vigário.

Em 1758 era Vigário um tal Fr. Tomé Brandão, ao qual se deve um Relatório existente na Torre do Tombo, que nos dá uma ideia da desbeneditinização da igreja e do mosteiro.

(Fonte: Gabriel de Sousa O. S. B.)

Extinto o Convento e as Ordens Religiosas em 1834, todas as suas riquezas passaram a pertencer à Fazenda Nacional, e para a Freguesia só ficou a Igreja, sem Casa Paroquial.

O Mosteiro de Cete passou a ser considerado Monumento Nacional, por Decreto-lei de Junho de 1910.

Dele, resta hoje, a Igreja, a Sala do Capítulo e o Claustro.