MOSTEIRO DE LEÇA DO BALIO
Monumento Nacional

Nascido de um anseio de beleza que submetia a Terra ao Céu, vivificado na traça pela arte criadora do arquitecto, e depois, pedra a pedra, pelo cinzel dos alvenéis, o edifício brotou do sombrio chão claustral com a graça de uma flor perenemente aberta e oferecida a Deus.

Das seculares paredes, partiram muitos dos que auxiliaram os nossos primeiros reis na reconquista das terras ocupadas pelo invasor sarraceno; abrigaram D. Afonso Henriques e a raínha D. Mafalda, sua mulher, para que escutassem as narrativas dos freires recém-chegados da Terra Santa; assistiram à realização do casamento de D. Fernando com D. Leonor Teles; ouviram a voz de Nun’Alvares, nas horas agitadas que antecederam o triunfo de Aljubarrota; inspiraram a mística infanta D. Filipa na iluminação ou composição de algumas páginas do seu devocionário…

No silêncio majestático da suas naves, dormem também o sono eterno alguns dignatários da Ordem dos Hospitalários.

Na capela-mor com abóboda de pedra, de nove nervuras, encontramos os mausoléus de D. Frei Cristóvão de Cernache, em estátua orante; D. Frei Lopo Pereira de Lima e de seu irmão D. Frei Diogo de Melo Pereira.

Próximo do baptistério, encontra-se o túmulo de D. Frei Garcia Martins, assente sobre três leões de granito. Conhecido por Santo Homem Bem Cheiroso, são-lhe atribuídos diversos milagres.

Na Capela de Nossa Senhora do Rosário - nave do lado esquerdo - podemos encontrar: o sarcófago de D. Frei João Coelho, a sepultura de D. Frei Estevão Vasques Pimentel e a estátua de Nossa Senhora do Rosário com o Menino, que data do Séc. XVII.

 O primeiro, Chanceler-mor de Rhodes ,  em estátua jacente resguardada por um arcosólido ornado no fecho com as insígnias da Ordem de Malta, é de pedra ançã. A frente da arca, tem esculpidos, lateralmente, dois brazões dos Coelhos, (eram pintados nas cores e metais próprios), e ao meio um anjo de asas abertas, igual aos anjos da pia baptismal, segurando a cartela do epitáfio de caracteres góticos, e, segundo se crê, gravado após a feitura do sarcófago.

O segundo, fundador da Igreja, em sepultura rasa, devidamente assinalada por uma placa em bronze, profundamente decorada e com uma inscrição relembrando a vida e virtudes do referido bailio. Com provável origem flamenga, esta, é considerada uma das mais belas e raras placas medievais de bronze que se conhecem na Europa

Foi D. Frei João Coelho, que no início do Séc.XVI, encomendou ao mais famoso artista da época , Diogo Pires, o Moço, as seguintes peças:

- a octogonal pia baptismal, esculpida em pedra ançã em estilo renascença floreado, rendilhada de preciosas estilizações zoo e fitomórficas e brasonada com o leão faixado dos Coelhos;

- o cruzeiro, que se ergue a poucos metros do mosteiro,tambem talhado em pedra ançã. Este, foi trazido do lugar do Souto, onde foi brutalmente mutilado, à cacetada, em Abril de 1912 (partiram-lhe os braços da cruz, o nariz e partes das pernas da figura de Cristo. Sob esta, vemos o brasão dos Coelhos e a meio da coluna uma legenda gótica: “O orior do Crato dõ frdy Johã Coelio o mandou fazer na era de mil V. e XIIII”.

Este cruzeiro está classificado como Monumento Nacional.

- e o seu próprio túmulo, que acima descrevemos.

A Capela de Nossa Senhora do Rosário é, também, conhecida como Capela do Ferro, pois segundo reza a lenda, uma mulher que pelo seu marido foi acusada de adultério, apelou para o chamado “Juízo de Deus” (purgação por ferro caldo) e invocou o auxilio e intercessão de D. Frei Garcia Martins.

Transportando o ferro em brasa desde o exterior da igreja até junto do túmulo do venerável bailio, as suas mãos não apresentaram qualquer marca. O ferro, segundo afirmam, esteve muitos séculos pendurado no teto da capela. Este é mais um dos feitos milagrosos a D. Frei Garcia Martins atribuído.

De linhas simples, harmoniosas e admiravelmente equilibradas, sem a opulência ornamental nem a solenidade da Batalha ou dos Jerónimos, a casa de oração dos antigos freires de S. João de Jerusalém, com a eterna juventude da arte, ainda hoje conserva como um corpo vivo, a alma religiosa do longínquo passado que a viu nascer.

A fachada do aguerrido mosteiro, flanqueada por gigantes, é aberta por um pórtico de quatro arquivoltas. Sobrepõe-se-lhe um balcão ameado e assente numa sumptuosa cachorrada. O corpo da igreja é dividido em três naves, sustentadas por 10 arcos, cinco de cada lado, sendo a nave central mais elevada.

Ressaltando da frontaria, à esquerda, alteia-se a torre, arrogante e dominadora, dentilhada de ameias, com vigilantes barbacãs angulares e robusta silharia fendida por torneiras. Na fachada sul, abre-se outro portal, também de quatro arquivoltas. Na parte nascente no transepto, firma-se um campanário.

Acerca do Mosteiro o historiador João Barros escreveu:

«... o mui nobre Mosteiro de Leça, da Ordem de São João de Rhodes, que ual para o Comendador hu conto de Renda, e tem seus coniguos Regrantes. He edifício muy magnifico e tem hua mui alta torre apozentamentos para o Comendador e coniguos. Alli jaz hu home Sancto, chamado Ioanne, por cuia causa se fazem muitos milagres; tem seu Couto de lurdição ciuil; a terra e sitio onde està he tão fresco que mais não pode ser. Tem hua deueza a elle iunta, muito grande, a Coal em uerão não sinto a que possa ser comparada. Neste mosteiro Recebeo el rei Dom Fernando por molher a Rainha Dona Lianor, como diz sua istoria. …».

Em redor do edifício nos relvados, encontramos alguns granitos lavrados e túmulos em pedra, que foram descobertos aquando da restauração do Mosteiro em 1940.

As origens do Mosteiro perdem-se nas brumas daquela “grande noite de mil anos” que foi a Idade Média, não havendo assim, certeza histórica quanto à data em que este secular edifício monacal foi construído.

O primeiro documento, em que é referido, data de 1003, tratando-se de uma doação que lhe é feita por D. Famula de Deos Vigilia.

Consta-se que a primeira casa religiosa terá sido fundada por volta do ano 900 pelos antepassados D. Tructezindo Osores. Para este e para sua mulher D. Unisco de Mendes, terá transitado o direito de padroado.

Em 1002, após ter enviuvado, D. Unisco, doou juntamente com outros bens, a propriedade de Leça, ao mais antigo e também dúplice Mosteiro de Vacariça na Mealhada.

Embora não haja certezas quanto ao seu passado mais remoto, sabe-se que nos fins do Séc.  X, a fábrica primitiva já existia, compondo-se então, de uma pequena igreja e de um monacato dúplice, isto é, albergando tanto monges quanto freiras. Era, na época, conhecido como Convento do Salvador, por ter então a invocação de Cristo, sob a designação de Salvador do Mundo.

Sendo as antigas crónicas contraditórias, não há certeza se a comunidade que albergava era Beneditina ou Agostina.

Corria o ano de 1094, quando D. Raimundo, conde de Galiza, acompanhado de sua mulher, D. Urraca, visitando a Sé de Coimbra e compadecendo-se com a penúria encontrada, decidiu fazer-lhe doação do Mosteiro de Vacariça e de todas as suas pertenças. Deste modo o Mosteiro de Leça passou a ficar integrado na Sé e Cabido de Coimbra.

Quase deserto e com minguados recursos, para os fins do Séc.XI início do Séc.XII, o cenóbio encontrava-se em franco declínio, razão pela qual D. Guntino, o mandou reedificar.

Do primeiro edifício nada resta mas, da reedificação de estilo romano existem vestígios que poderão ser observados nas traseiras da igreja; uma janela geminada e um troço que resta do claustro com arcos de volta plena suportados por colunas monocílindricas de capitéis decorados (Séc. XII).

Entre 1112 e 1116, D. Theresa Afonço, já na data viúva do Conde D. Henrique, doou aos “Cavalleiros Hospitalários da Ordem de S. João de Jerusálem”, o Convento do Salvador. Este, assim, se perpetuou como a primeira casa desta Ordem.

Até ao reinado de D. Afonso IV, os chefes da Ordem, entre nós, tiveram o título de Priores do Hospital. Depois, por se haver fixado na vila do Crato, doada à Ordem por D. Sancho II, a sede do Priorado, os antigos Priores do Hospital começaram a ser conhecidos pelos Priores do Crato. Dos últimos, o mais privilegiado e o mais rico, depois do que se anexava à casa-mãe, era o do Leça.

Em 1122, por concordata, foi atribuída ao Prior do Mosteiro de Leça, D. Martinho, e a todos os seus sucessores toda a jurisdição eclesiástica, sendo também suprimida por este documento, a obrigação até então pertencente ao Mosteiro, do fornecimento de um jantar anual.

Em 1123, por carta, D. Afonso Henriques, concede-lhe o couto separada da cidade do Porto.

Em 1157, D. Afonso Henriques e D. Mafalda fizeram doação do couto do mosteiro ao procurador D. Raimundo e ao Prior de Portugal e Galiza D. Ayres, da Ordem de S. João de Jerusalém.

Em 1166 o Couto de Santa Maria de Leça foi confirmado.

«Consta do Tombo deste Baliado dar o Senhor Rey Dom Affonso Henriques esta igreja a Dom Raimundo (conde e senhor de Galiza), Provedor dos Santos pobres da Santa Cidade de Jerusalém, e a Dom Ayres Prior de Portugal e Galiza, e lhe deo terras e pençoens, e lhas coutou no ano de 1166 e lhe deo jurisdiçam Cível e poder de pôr ouvidor que conhecesse de appellaçoens e agravos e alimpasse pautas e confirmasse juizes e vereadores, que se elegessem pello povo na camera destito Couto de Lessa, e assim sam os venerandos Balios senhores donatários e capitaens mores deste couto».

Em 1180, o Convento é mandado reedificar por D. Gualdim Paes de Marecos, e dedicado a Santa Maria.

Em 1212, D. Sancho I, reformou e ampliou a igreja e casa de Santa Maria de Leça.

É ao Prior D. Frei Estevão Vasques Pimentel, já investido na dignidade de Bailio de Leça, que se devem as importantes obras que, pelos anos 1330, ampliaram o secular mosteiro – e foi então que se ergueu em substituição da primitiva igreja, arruinada e sem grandeza, o admirável templo que ainda hoje vemos.

Esta obra depois de completa, foi pelo valoroso Frei, dedicada à Senhora da Encarnação mudando assim a invocação do Salvador para a de Nossa Senhora da Encarnação.

Nos meados do Séc. XVII, por capricho devoto do então Bailio, a imagem de Nossa Senhora da Encarnação que repousava no altar-mor, foi desterrada para a sacristia. No seu lugar, foi colocado um retábulo pintado a óleo, em honra de Nossa Senhora da Assunção.

Há quem defenda que a grande torre, erecta ao lado do templo, foi então construída,... há quem julgue que entre as duas construções há diferenças que as desirmanam e que não se escondem a olhos mais experimentados.

Nesta segunda versão, as obras ordenadas pelo austero e piedoso Bailio, não seriam mais que puras reparações ao inabalável gigante de pedra, cujos alicerces provavelmente datam do tempo em que o mosteiro passou dos pacíficos Beneditinos - ou Agostinos - aos monges guerreiros da Ordem de S. João de Jerusalém.

Com a extinção das ordens religiosas em 1834, o Mosteiro de Leça passa a servir como igreja paroquial.

A obra de D. Frei Estevão Pimentel conservou-se intacta, segundo parece, durante largos anos, mas a mão implacável do tempo e a infâmia criadora de alguns dos que se propuseram a restauros, operaram a sua obra.

Assim, decorridos seis séculos, o Mosteiro de Leça, necessitava urgentemente de obras não só de restauro mas de reabilitação e reintegração, por forma a ressuscitar toda a sua beleza e esplendor medieval. Estas obras foram levadas a cabo, recentemente, pela Direcção Geral dos Monumentos Nacionais.