MOSTEIRO DE MOREIRA
   Monumento Nacional

Apresenta-se-nos nobre e altivo, ciente das suas vetustas paredes, o Mosteiro de Moreira.

Mas quão vetustas serão as suas paredes???

O Cronista Crúzio, Nicolau Santa Maria, faz remontar a sua existência a 862, ano em que Dona Gontina efectuou várias doações a um convento em Gontão. Segundo este autor, a primeira "Casa" deste Mosteiro seria portanto em Gontão e de invocação a S. Jorge.

Existe um documento datado de 915 no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, que refere a "eglesia Santi Salbatoris".

Porém, na obra "O Mosteiro Crúzio de Moreira", refere-se que a primeira prova documental, data de 1027, e insere-se também num conjunto de doações de terras que beneficiavam o "(...) Sancti Salvatoris Aulam Dei (...)". Inúmeras doações foram feitas pelos anos de 1042 a 1087, ano em que Tructesindo Guterres doa a quinta parte dos seus bens a este Mosteiro.

O Padre Joaquim Antunes de Azevedo, assim conta: "(...) 1º D. Mendo, seu fundador e 1º abbade pelos annos de 1064. (...) Já no tempo do abbade D. Mendo existia em Moreira a relíquia do Santo Lenho da Cruz que eu supponho com fundamento, que viesse para aqui do antiquissimo Mosteiro de Lavra como acima fica dito. (...)". Ainda de acordo com este autor, por vontade e esforço do Prior D. Henrique Brandão, as obras de reconstrução da Igreja e Mosteiro iniciaram-se em 3 de Maio de 1588, tendo sido concluídas 34 anos mais tarde, no dia 3 de Maio de 1622.

Mas, Augusto Vieira, (com concordância de Pinho Leal) assim se lhe refere: "o primitivo convento de Moreira foi onde é a ermida de São Jorge de Gontão, sendo também esta a sua invocação, e d'ela foi fundadora D. Gontina, senhora das Pedras Rubras, no anuo 900 de Cesar. O abbade D. Mendo é que o removeu em 1060 para o sítio actual, sendo a nova egreja benzida pelo bispo do Porto, D. Hugo, e chamando-se desde então do Salvador. Foi de Cónegos regrantes de Sto. Agostinho (crúzios)(...).O convento do Salvador teve doações importantíssimas, citando-se entre muitas as de Soeiro Mendes da Maia, em 1123 (era de Cesar), e as de Fructesindo Gutierrez em 1116. Est'ultima dava notícia de uma relíquia do Sagrado Lenho, a qual durante as guerras da nossa autonomia desappareceu, sendo depois, em 1510, encontrado pelo prior Vasco Antunes debaixo da pedra d'ara do altar-mor, dentro de um antigo relicário, o que deu origem a sumptuosas festas. (...)."

O Couto do Mosteiro de Moreira, foi concedido por D. Afonso Henriques, ainda antes de 1170.

Em 1609 foi eleito em Coimbra Prior geral, D. Miguel de Santo Agostinho, que em 1611 encomendou ao Desembargador na cidade do Porto, Dr. Gabriel Pereira de Castro, o tombo das terras do Mosteiro de Moreira e sua demarcação.

Os seus marcos com inscrição A MR 1611 ou A MR 1612, ainda hoje podem ser vistos no Mosteiro.

Foi D. José da Graça, que em 1676, mandou fazer o rico retábulo da Capela Mor e a tribuna, encomendando-o ao mestre entalhador Jeronymo da Costa.

Tal como outros doze conventos da congregação de Santo Agostinho, também o Mosteiro de Moreira foi extinto no ano de 1771 por Breve do Papa Clemente XIV expedida a instância de D. José I.

Em 1772, o mosteiro com a sua quinta foi vendido a Domingos Leonardo Farinha, de Moreira. Pouco tempo é passado e, de novo, dele tomam posse os religiosos, sendo desta vez os cónegos de Mafra. Só mais tarde com a expulsão de todas as ordens religiosas, em 1834, é feita a primeira venda pública,ao Desembargador Luís Lopes Vieira de Castro, para sua residência. Passados que são quarenta anos, novamente passa a propriedade de mão, desta vez para Dª Rita de Moura Miranda de Magalhães.

A antiga Igreja de São Salvador de Moreira, hoje Igreja Matriz, é edifício seiscentista cuja fachada em cantaria embora imponente, é austera, pesada e sem o brilhantismo de mais pequenas catedrais do seu tempo. As torres sineiras encontram-se na cabeceira da Igreja. Na torre Norte, uma inscrição : 1695.

A sua frontaria é dividida verticalmente em três tramos separados por pilastras lisas encabeçadas por capitéis de estilo jónico junto à cornija. Horizontalmente é dividida em 2 pisos, separados por cantaria lisa e pesada.

No piso superior, no tramo central, abre-se um imenso janelão rectangular com o topo em arco perfeito. A ladeá-lo, antes da reforma de 1884, estavam dois janelões, agora enchidos com pedra. Logo acima da Cornija, uma singela varanda balaustrada adorna a empena em cujo tímpano mora o relógio. Esta, de forma triangular, é rematada em cada canto por uma cruz.

No piso térreo, três enormes portões em ferro forjado, separados por grossas colunas de granito, dão entrada para uma Galilé relativamente apertada, em cujo lado direito se encontra a capela mortuária, que em tempos foi dedicada a São Jorge e serviu de Baptistério. Na entrada central temos a inscrição "1725 / reformada em 1884". Passando-a, no chão encontramos várias pedras com números gravados a marcar sepulturas, que até 1837 só se faziam em lugar sagrado.

Acedemos ao templo por amplo pórtico todo em granito lavrado. O seu topo é em arco de meio ponto.

A ladeá-lo dois pares de colunas, assentes em pedestais, cuja base é finamente trabalhada em cruzetas e besantes em alto relevo. Daí, até aos capitéis coríntios as colunas são elegantemente estriadas.

A nave, gigante rectangular, tem a vinte metros de altura um tecto arredondado e, em caixotões de tijolo estucado.

Passado que é o pórtico, no seu lado esquerdo, depois do coro, está interessante conjunto pintado em madeira, encaixilhado em soberba moldura. Trata-se de um quadro das almas, sobrepujado por outro da Santíssima Trindade. Ainda neste lado, duas Capelas se nos apresentam: a do Senhor dos Passos e a de Santo Agostinho. Do lado direito, a Capela do Senhor Crucificado e a de São Teotónio. No seu meio uma imagem de Jesus.

A primeira destas quatro localizada a meio da nave, iluminada por janela e guardada em púlpito abobadado e pintado, a imagem do Senhor dos Passos que antigamente, no 2º Domingo da Quaresma, saía em procissão . A rematar o retábulo que lateralmente nos apresenta caixas de relicários embutidas, alguns anjinhos delicadamente esculpidos. Na sua base, o sacrário a que já se chamou, do Santo Lenho ou Relicário da Cruz.

Sob este jaz o Senhor Morto. Todo este conjunto foi em 1996 dourado.

A esta, segue-se a Capela de Santo Agostinho, que tal como a precedente é em mármore rosa e verde lavrada, no entanto, ao contrário dela acede à nave por arco redondo. Encerrando a imagem do patrono da Congregação dos Crúzios, este surge-nos vestido de Bispo e segura na mão direita um coração em chamas e na esquerda o báculo. Separadas por lisos fustes encabeçados por capitéis coríntios dourados, iguais aos que encontramos nas restantes Capelas, é ladeado, pelas imagens de Santa Mónica, sua mãe, á esquerda e Santa Madalena, à direita. Ambas as imagens repousam em peanhas finamente trabalhadas. No topo, ao cento do retábulo todo ele dourado em 1997, abre-se um óculo redondo por onde transparece a luz exterior.

No lado direito a Capela do Senhor Crucificado de fronte à do Senhor dos Passos. Tal como o nome indica, a imagem presente é a de Jesus Crucificado. A seus pés, na base do retábulo dourado em 1996, está a imagem de Nossa Senhora das Dores. A ladeá-lo, São Sebastião e Nossa Senhora da Conceição, em imagens de menor proporção.

A seguir a esta e do mesmo lado, a Capela de São Teotónio, primeiro Prior de Santa Cruz de Coimbra, em tudo idêntica à fronteiriça Capela de Santo Agostinho, mas cujo retábulo foi dourado apenas em 1998. Esta imagem é venerada em todos os mosteiros que pertenceram à Ordem de Santo Agostinho, ordem que foi responsável pela edificação da maioria dos mais antigos ascetérios do nosso país. Flanqueiam São Teotónio, São José e São Joaquim.

A entrada para a Capela Mor é feita através de um imponente arco de volta prefeita a que se chama Arco Crúzio. Acima deste, o frontão em cujo tímpano reside uma cruz. Neste Arco, ainda do lado da nave, podemos apreciar dois altares em sumptuosa talha barroca dourada.

O Altar do lado do Evangelho é o de Nossa Senhora do Rosário, cuja imagem até 1741 estava colocada naquela que é hoje a Capela do Senhor Crucificado. Até essa data este era o altar de Santo Agostinho. Sobrepujando-a um quadro ilustrando a recuperação da Santa Cruz pelo Imperador Heráclito. Existe na Paróquia um Livro de Actas datado de 1744, segundo o qual os padres dominicanos teriam criado nesta Igreja a Confraria do Rosário.

No Altar do lado da Epístola, mora a imagem de Santo António com as vestes de cónego regrante. À semelhança do anterior, é em talha dourada, e a encimá-lo está um coração em chamas, indicando que em tempos idos este seria o altar a Santo Agostinho. Desta feita, o quadro que encima e remata este altar representa o citado Imperador, descalço, carregando a Santa Cruz para Jerusálem.

Entramos na Capela Mor. O seu tecto em caixotões de pedra esculturados, é abobadado. No seu centro esculpido num caixotão maior está a imagem do cordeiro eucarístico sobre um livro. As paredes são revestidas a azulejo do Séc. XVII. Todo o Retábulo Mor é uma obra de arte magnificentemente trabalhado em Talha Dourada. O Altar Mor, é emoldurado por um arco de três arquivoltas, sustentadas por dois conjuntos de duas colunas, uma redonda e outra quadrada, todas com motivos fitomórficos majestosamente trabalhadas. O seu tecto, em caixotões de madeira também trabalhada e dourada, é abobadado.

Possui ainda este templo, um belíssimo órgão de tubos da autoria de Arp Schinitger e cuja data inscrita dentro da sua caixa, 9/V/1701, atesta a antiguidade do mesmo. Embora possivelmente tenha sido anteriormente reparado, em 2000, por se encontrar em elevado estado de deterioração, este instrumento musical foi restaurado pela firma de Georg Jann.