IGREJA DO MOSTEIRO DE SANTA MARIA DE ÁGUAS SANTAS
Monumento Nacional

Igreja de Águas Santas

Relativamente à Igreja do Mosteiro de Águas Santas, muito se apraz contar. Já em 1120 no seu breve, o papa Calisto II, dissertando sobre os limites do bispado do Porto, cita o mosteiro de Aquis Sanctis.

No início do Séc. XIII, é mencionado no Censual do Cabido do Porto. Durante o reinado de D. Sancho II, a Ordem do Sepulcro recebeu do rei 636 Libras de ouro sendo: 300 para o Mosteiro, 200 para o Hospital e 136 para a Igreja.

Pelas Inquirições de 1258 sabemos que ao "Monasterium Aquarum Sanctarum" pertenciam as vilas de Parada, Pedrouços, Ardegães e Rebordãos. Ainda nesse ano, procedeu-se à feitura de uma relação das igrejas do Porto das quais o Rei seria padroeiro, constando nessa relação o "Monasterium d'Aquis Sanctis". Nesta altura já este teria sido doado pelo conde de Bolonha, D. Afonso, à Ordem do Santo Sepulcro. Com efeito em 1264, D. Afonso e mais tarde em 1281, D. Dinis, nomearam Priores, Cónegos da referida ordem.

Segundo o Frei Nicolau Santa Maria, na "Crónica dos Cónegos de Santo Agostinho" o Mosteiro e Igreja de Águas Santas, teria sido fundado pelos cavaleiros do Santo Sepulcro, dando-o como dúplice, isto é, albergando cónegos e cónegas de Santo Agostinho da ordem regrante do Santo Sepulcro e informando ainda que a colegiada já existia em 1130.

No entanto, segundo o Padre Agostinho de Azevedo, baseando-nos nas provas históricas documentais, esta opinião não será completamente acertada, pois em 1186 o Bispo de Viseu, D. João Pires, cedeu ao mosteiro dos Cónegos do Templo de Águas Santas, a têrça dos dízimos da Igreja do Ledário, que lhes havia sido doada por D. Tareja. Este documento é assinado pelo prior de Aquis Sanctis, de nome Egas e por vários cónegos do Templo, o que prova que a esta data o Mosteiro de Águas Santas pertencia à Ordem do Templo que pode ter relação com a do Sepulcro do Senhor mas não com a de Santo Agostinho.

Já em relação á Colegiada, nos parece verdadeira pois em 1321 do "ânuo" (contribuição de um décimo como subsídio para a guerra contra os mouros) consta o "Mosnasteruim de Aquis Santis", como contribuindo com 400 libras e o seu "Colegium" com 100 libras.

Mais tarde, com a abolição desta ordem, uniram-se os seus cavaleiros e bens à Ordem do Hospital ou de Malta, cujos Grão-Mestres se proclamavam "Mestres sacrae Domus Hospitalis sancti Joanis Jerosolymitani et Militaris Ordinis Sancti Sepulcri Domini". Estas são as provas documentais.

A Igreja, que ora se queda neste histórico local é, segundo o Padre Agostinho de Azevedo, Monumento Nacional desde 1884. Até fins do Séc. XX, esta igreja granítica de estilo Românico apresentava-nos uma ampla fachada ladeada á esquerda, por uma imponente e arrogante torre sineira, cujo campanário inclui um sino que data de 1886, coroada por merlões com cúpula granítica piramidal, e à direita por uma parede ameada. Hoje, essa parede ameada já não existe.

A sua nobre fachada é dominada pelo gigante gótico que flanqueia o pórtico. Este é de quatro arquivoltas assentes em duas ordens de quatro fustes cilíndricos lisos, encimados por capitéis trabalhados com motivos antropomórficos e fitomórficos. A encimá-lo um amplo janelão rectangular quadrilobado. Sobre este, o estribo assinalando o tímpano da empena.

O corpo da Igreja é dividido em três naves. A sua concepção arquitectónica foi concebida por forma a que, observador incauto, pudesse confundi-la com o primitivo modelo medieval.

Assim, a nave sul ("nova") apresenta portal idêntico ao encontrado na nave oposta. Sobre ambos os portais, janelas redondas com uma pétrea Cruz de Malta, ao centro.

O conjunto, na nave norte, é flanqueado por gigante de quatro arquivoltas sustentado por duas ordens de duas colunas cilíndricas encabeçadas por capitéis decorados com motivos fitomórficos.

Segue-se a cabeceira semicircular da absidíola norte ornamentada por modilhões esculpidos em forma de animais.

Na cabeceira da Nave Central duas janelas, uma de cada lado, de arco pleno, românicas, emolduradas por tálamos pousados em colunelos, quiçá, aspirando o estilo moçárabe.

É aqui no altar Mor que uma das ampliações pelas quais este nóbre e sagrado edifício passou, está mais visível. A parede lateral da direita apresenta duas janelas, mas até a mais distraída das criaturas repararia que são muito diferentes uma da outra. A segunda janela, românica, cujos colunelos remetem ao estilo moçárabe, estaria no topo do edifício; mas devido às ditas obras foi transferida para aquela parede lateral.

Passando o seu ancestral portal logo nos apercebemos da grande variedade de estilos que marca esta Igreja, realçando desta forma, a sua antiguidade e sucessivas restaurações e ampliações a que foi sujeita.

A nave primordial, apresenta-se-nos com um pormenor quase único. As suas paredes em pedra, delicadamente pintadas à mão aquando da sua reconstrução, chegam-nos até hoje, como vestígios do esplendor de outrora. Ladeando-a, dois altares em garbosa talha setecentista.

Um, dedicado a N. Sra. das Dores, no qual a sua imagem nos surge ao centro ladeada por S. Brás e N. Sra. do Carmo, e outro, dedicado a N. Sra. dos Remédios, que datando de 1720 alberga um painel esculpido e policromado, representando a Anunciação.

Tal como se lê na placa colocada na parede da nave sul:

" ELÉGI LOCUM ISTUM MIHI DOMUM SACRIFICII.

Lº. 2º. Paralip.

Aprimordial fundação d'esta egreja de tão gloriosas recordações perde-se em a noite do passado! Reedificada pelos annos de 1097, só tinha a nave do norte, em dous arcos ogivaes. Sendo seu parocho Antonio d'Ascensão e Oliveira, em 1874, os arcos converteram-se em um só, a tosca columna que os sustentava ao meio foi tirada, e fez-se esta nave do sul"

A data aventurada por Pinho Leal para a existência do Mosteiro, remonta ao Séc. VI.

O seu altar-mor é abobadado numa semi-esfera assente em dois pilares. Nesta nave se situa a capela do Santíssimo, adornada com magnificente talha. É também por esta nave que se processa o acesso à torre através de uma sólida porta ogival.

A Nave Primordial, (nave Norte), datada do Séc. VII, e segundo os últimos estudos efectuados por equipes Portuguesas e também Italianas e Espanholas, a Igreja primitiva, composta apenas por esta nave, foi destruída em fins do Séc. X.

A sua reconstrução que incluía a nave central foi iniciada em meados dos Séc. XI, tendo sido concluída em finais do Séc. XII.

Mais tarde, cinco longos séculos passados, no Séc. XVII construiu-se a Capela-Mor e a Nave Sul.

Nos princípios do Séc. XVIII, aumentou-se a Capela-Mor colocando lateralmente a janela que lhe servia de topo.

Em 1874, Séc. XIX, foram promovidas, pelo Abade Ascenção, novas obras de ampliação. Após estas, encontramos um arco amplo que naquela data foi aberto, remetendo para o esquecimento os dois belíssimos e geminados arcos góticos que eram apenas por uma coluna separados.

No entanto, a inscrição da referida placa, cujo teor se transcreve neste mesmo texto, algumas linhas mais acima, declara que a Nave Sul foi também construída em 1874.

O acesso ao altar-mor, situado na nave central, faz-se por um arco de circunferência perfeita sustentado por capitéis com motivos fitomórficos assentes em dois fustes cilíndricos e esguios. Sobrepujando o arco, lindíssima rosácea, assemelhando-se a uma flor, completa o harmoniosamente belo e equilibrado  conjunto

No centro, a imagem de Jesus Cristo na Cruz ladeada pela imagem da Padroeira , Nossa Senhora do Ó, também conhecida por Nossa Senhora da Expectação ou Nossa Senhora Grávida, e pela imagem de S. João.

Todas as imagens datam do Séc. XVIII.

Na nave sul encontramos a capela do Sr. Morto, estando sua imagem aos pés de N. Sra. da Soledade.

Os altares laterais ambos de 1720, são dedicados um, a Nossa Senhora da Conceição (cujo topo apresenta também painel representando a Visitação) e a S. José, (tendo o painel de fundo com as almas no purgatório e o do topo também ele esculturado, representando a Santíssima Trindade) Ainda nesta nave está o Menino Santo, cujo corpo foi descoberto, em prefeito estado de conservação (tal como ainda hoje se encontra) nos escombros, aquando da reconstrução da nave principal.

Mas .... mesmo com a miscelânea de estilos com que nos aparece, ou talvez mesmo por sua causa, este é um monumento a visitar e a cuidadosamente observar.